Pró-vida e pró-escolha

Vida e escolha formam uma dupla necessária a todos, mas nesse assunto querem separá-las. Começaram a falar duas correntes antagonizando esses princípios, me obrigando a pensá-los como alternativas binárias. E quem não quer entrar nessa arapuca? Tem escolha?

Ao ver essa divisão que fizeram entre esses conceitos, eu, que não me contento em perder nem no par ou ímpar, logo fui querendo um jeito de ficar com os dois.

Vida, vida, vida. Vidaaaaa!

Nessa questão toda, não há como escapar da vida. Alguns dizem que o problema maior do aborto é definir quando começa a vida, mas nem tudo o que parece é. Sabe-se, de antemão, que o resultado da fecundação entre espermatozoide de um homem e ovócito II de uma mulher, fixado no útero de uma mulher é um ser vivo em gestação com DNA humano.

Logo, no caso dos fetos, a discussão não é propriamente sobre a vida, é sobre a morte ou o momento em que se interromperá o processo da vida e por quê.

Vida e morte

Volta e meia, acabo me deparando com um discurso profético. Um culto animado em que os fiéis seguram na mão o livro dos mortos, invocam o espírito de Anúbis e proclamam arbitrariamente saber o momento exato para o aborto.  Só querem cobrar a vida pela hora da morte: sem sistema nervoso, sem vida.

Ainda que existam seres vivos sem sistema nervoso como fungos ou bactérias, a morte cerebral é considerada um marco para nós, seres humanos. Parece plausível.

Só que, como sou muito desconfiado, logo me pergunto: como essa lógica pode se aplicar a um tipo de vida que não desenvolveu sistema nervoso ainda, mas o desenvolverá em processo natural? Bem diferente é o caso daquele que perdeu atividade em seu sistema nervoso e é justamente por essa diferença que é declarado morto. *

Se aqueles que sofressem morte cerebral tivessem alta probabilidade de recuperar atividade no sistema nervoso, não seriam mais declarados mortos por causa disso. É simples, mas os sacerdotes de Anúbis fingem que não sabem.

Morte e mais morte

Muitas mulheres morrem em decorrência de abortos ilegais. Quando eu ouvi a informação pela primeira vez, pensei que esse fosse um bom argumento para as mulheres não realizarem abortos ilegais, mas me enganei.

O mundo é às vezes muito confuso e, na verdade, usam esse argumento para derrubar os casos em que o aborto é ilegal. Se o aborto ilegal é precário, não seria o mais lógico que fossem feitas campanhas tentando informar a população e coibi-lo?

Para que se transforme o aborto ilegal em legal, há necessidade de justificativas para defender morte legal a partir de mortes ilegais. É algo inimaginável, tamanha a incoerência. Já que mulheres podem morrer tentando interromper a gravidez ilegamente, vamos interromper a gravidez dentro da lei, dizem. Isso quando não dizem claramente: vamos parar o processo de vida no SUS com dinheiro público. Financie abortos, é uma questão de saúde pública.

Essa é a mensagem para os incautos. Presume-se que o aborto é a única alternativa justamente para justificar a legalidade do aborto. Notável petição de princípio.

Vou aplicar a mesma lógica num outro caso hipotético pra realçar o absurdo. Já que muitas pessoas morrem na tentativa de fugir de presídios ilegalmente vamos liberar a fuga legalmente para que elas não morram.

Meu corpo, minhas regras

Há uma frase muito útil para encerrar o assunto sem nenhuma explicação. Não, não é “porque sim”. É uma melhor. Com o “porque sim” ouvi da minha mãe até fazer beiço: “porque sim não é resposta”.

Agora há uma alternativa melhor. Pena que pra brigar com os moleques na escola eu ainda não conhecia a frase “meu corpo, minhas regras”. Eu teria na ponta da língua: “minha regra de movimentação do meu corpo é essa, incluindo a minha mão na sua cara”.

A tia insistia que eu tinha que levar em consideração o direito dos outros. Crescendo e aprendendo.

Pelo fim da dicotomia

Ainda que muita gente não perceba, sempre acontece uma escolha tácita de ambos sobre ter um filho no momento de qualquer rala-e-rola. É uma consequência possível, ainda que se use métodos contraceptivos.

Fora os casos de estupro**, ninguém pode dizer que não teve escolha. Sejamos todos, nesse sentido, pró-escolha.

Da mesma forma, não se pode exigir da mãe com risco de morrer que prossiga sua gravidez.*** Nesse sentido, espero que sejamos todos pró-vida, não aceitaremos a morte da mãe em troca da vida de filhos.

O direito que protege a vida e respeita a escolha é pró-vida e pró-escolha. O direito que desrespeita a vida e só leva em consideração uma escolha, ferindo as escolhas e os direitos dos demais é contra a vida e contra a escolha. Espero assim resolver a dicotomia na minha mente.

Os asteriscos são os casos atualmente legais do aborto, concordo com todos eles.

* Nisso chegamos à diferença entre os fetos sãos e os fetos anencéfalos, os primeiros desenvolverão sistema nervoso e de modo algum podem ser confundido com mortos, os segundos, embora estejam vivos enquanto no ventre da mãe, possuem semelhança com o paciente com morte cerebral, que é dado como morto.

** Aquela que foi estuprada não teve de fato escolha. Não haveria justiça em exigir que ela sofra as consequências de ato que não decorreu de sua vontade nem de sua omissão.

*** No caso de risco à mãe, por mais que fosse uma consequência possível, não é condenável que ela interrompa a sua gravidez justamente para proteger sua vida. É o mesmo princípio da legítima defesa.

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