A celebração de 16 de agosto

Os discursos de sempre

Esqueçam as muitas “análises” que tentarão emplacar sobre o protesto de hoje, geralmente fugindo do tema principal, ora abordando fotos com a PM, ora abordando os gatos pingados viúvas dos militares. As pessoas que fazem essas “análises” já sabem aonde querem chegar, elas só esperam uma desculpa pra externalizar suas frustrações. A cada vídeo da TV Folha poderão fazer um espantalho sobre toda a oposição e é isso que importa: afetar superioridade a esses aí que protestam. No fundo tudo não passa de mostrar para seus amiguinhos: não se misturem com essa gentalha.

Assim é fácil calar sobre o principal: sobre os desmandos do governo PT. Imaginem a quantidade de malabarismos retóricos para explicar o Petrolão, explicar que Dirceu não foi expulso (mesmo o PT tendo prometido expulsar corruptos), que Vaccari foi aplaudido, que a vaca tossiu, mas que com Aécio seria pior. É melhor fugir do assunto até porque desses grandes “analistas” políticos vários recomendaram o voto em Dilma em eleições passadas, basta buscar na sua timeline pra ver o quanto suas “análises” são só pregação mesmo.

Quem vem pra rua vem exigir um direito que é seu: se revoltar contra as injustiças do governo. E nisso não cabe nenhuma interferência estúpida como dizer que não pode reclamar do PT enquanto há outros casos de corrupção, afinal ela é endêmica no Brasil. É o surrado argumento repetido à exaustão: todos roubam, o PT não inventou a corrupção, a manifestação é seletiva, etc.

Esse tipo de pensamento ignora que é preciso começar de algum lugar. Quem espera atacar tudo para começar a agir não vai resolver nada. Além disso, era só o que faltava: alguns se achando no direito de dizer para outros contra quem se deve ou não revoltar. Mais uma vontade de se sentir superior e achar que pode tutelar a opinião alheia. Veja bem, não proteste contra o partidão, você está fazendo o jogo da “direita”!

E é claro que, assim como o “sistema” e o “neoliberalismo”, a “direita” é esse conceito bem elástico em que se pode encaixar tudo e realçar sempre o que der mais medo na sua plateia. Logo, se Bolsonaro é de “direita” e o que vai contra o PT faz o jogo da “direita”, você pode usar o Bolsonaro para atacar quem faz oposição ao PT.

Se esse truque estiver muito manjado, tem ainda este duplo twist carpado que está fazendo sucesso nas redes sociais (lembre-se de usar apenas para os seus amigos que não entendem lógica):

Alguns PMs matam. Alguns manifestantes tiram foto com PMs. Os manifestantes chancelam mortes de inocentes na periferia.

A manifestação para além da picuinha

O que importa mesmo hoje é comemorar. Comemorar que por mais que a oposição fraqueje, por mais que a nova mídia comprada com nosso dinheiro distorça, por mais que os petistas gritem “golpe!”, os que vão pra rua entenderam perfeitamente o que são Dilma e o PT: são seus alvos de insatisfação.

Dilma e o PT representam hoje o cinismo diante da corrupção e a mentira como estratégia de campanha e por isso são os alvos dos protestos. E não há retórica que dobre a verdade de que os manifestantes têm completa razão em sua revolta. Daí vem a grande força dessa manifestação.

E o impeachment ou não impeachment? Eis a nossa questão? O impeachment de fato depende fundamentalmente de qual papel o PMDB vai querer desempenhar em seu teatro. Justamente por isso é tão irrelevante. É uma decisão política do aliado de todas as horas do PT, imerso em todas as suas falcatruas. Não está em nossas mãos.

O que está em nossas mãos é o “Fora, Dilma!”, uma mensagem de rejeição que diz com todas as letras que Dilma com sua campanha de mentira carrega também uma faixa de mentira, que ela não nos representa, que sua figura já nada vale, que ela agora é o que no fundo nunca deixou de ser: um poste. Antes sustentado por Lula, agora mantido pelo PMDB.

Se vai renunciar ou permanecer, sofrer impeachment ou cassação, isso ao futuro pertence. O “Fora, Dilma!” em si já é hoje uma ameaça incontornável ao projeto de poder populista que o PT e seus partidos aliados elaboraram pra América Latina.

Como manter as aparências do discurso petista de que é perseguido pela elite se 2 em cada 3 brasileiros querem a abertura do impeachment? Como manter o discurso de que luta pelos pobres se sua preocupação à noite é ligar para empreiteiro pra saber se aqueles empréstimos do BNDES estão queimando muito o seu filme? Pior: como falar pelo povo quando o povo assume a rua e fala por si mesmo?

Por isso, festejem! Temos muito o que comemorar. O discurso fácil de “nós” contra “eles” em que o PT se fazia de ventríloquo do povo e “eles” eram sempre essa elite que não gosta de pobre viajando de avião já não funciona mais. Agora que o projeto petista entrou em colapso, será necessário voltar a fazer política de verdade. Explicar, por exemplo, por que a “nova matriz econômica” não deu certo. As bravatas terão que ser deixadas de lado e então começaremos realmente a pensar os problemas do país.

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